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A Índia muda tudo

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Falei que ia deixar a Índia pra depois, mas decidi fazer mais um post antes de cair no Oriente Médio.

Não escreverei sobre os lugares e pessoas incríveis que conheci por lá – ainda que eles dessem um mês de blog. Esta é uma tentativa de compartilhar a experiência de estar na Índia.

Esqueça o que você viu naquela novela.

A Índia muda tudo.

Na sua maneira de encarar o mundo, de lidar com seus padrões estéticos, de compartilhar coisas e espaços, de sentir. Simplesmente. Ela muda paradigmas. Sinto que já virei uma daquelas pessoas chatas que começa frases com “Lá na Índia…”, mas é inevitável.

Nenhum lugar é mais barato que na Índia
Hotel com piscina, vista boa e gente legal com quarto duplo com banheiro a 3 dólares por noite? Mercado de roupas onde é um ultraje pagar mais de dois dólares por uma camiseta de marca? Refeições com “free refil” de tudo a meio dólar (preço para turistas, o mecânico do meu lado passou R$0,30)? É possível encontrar um ou outro lugar que tenha uma das opções acima, mas só a Índia atende às três.

Nenhum lugar é mais sujo que a Índia
Vacas que comem lixo e defecam nas ruas, cachorros brigando pelo mesmo lixo, plástico jogado pelas janelas sem cerimonia, ausência de coleta de lixo sistematizada, um permanente cheiro de chorume. Você se acostuma e até começa a jogar garrafa de água vazia no chão, na falta de opção e certeza que uma a mais não vai fazer tanta diferença.

Nenhum lugar tem homens mais tarados que na Índia
Para muitos indianos, mulher turista solteira ou sem o marido no momento é o mesmo que “sexo grátis ambulante”. As com “marido” também estão sujeitas a olhadas sem discrição, mesmo se estiverem usando roupas compridas e largas. E a perguntas nada discretas. Culpe a indústria pornô ocidental e a sociedade em que homens só têm contato com mulheres da própria família – e olhe lá.

Nenhum lugar tem a noção de privacidade e “espaço pessoal” mais volátil que a Índia
No metrô, no carro para mulheres, estão todas sentadas corretas no banco quando uma outra mulher manda todas arredarem e encaixa os quadris no espaço que se abre. Um banco onde cabem 2, cabem 4. Um tuktuk tem capacidade infinita, basta um pouco de aperto e ousadia. Em uma fila (quando respeitam uma fila), qualquer espaço aberto entre você e a pessoa da frente deve ser ocupado – mais um passo pra frente, ou outra pessoa vai te empurrar ou reclamar. Homens se amontoam com homens e mulheres com mulheres, no entanto. Nada de toques entre sexos, mesmo!

Nenhuma das afirmações acima é 100% verdade (uma exceção pode ser a primeira delas… Tudo tão barato!!)
Vale dizer que encontrei na mesma India de homens loucos de tesão alguns que renunciaram os prazeres da carne em nome da espiritualidade. Que fiquei impressionada com a limpeza extrema do Templo Dourado em Amritsar, onde comem 35 mil pessoas por dia e milhares dormem, usam o banheiro, tomam banho… Tudo grátis e impecavelmente limpo. Que participei de uma briga com outras indianas contra gente que estava furando fila na cara dura. Que recebi muito amor de famílias que sentem prazer em te convidar para entrar em suas casas, tomar chá, mostrar suas fotografias, seus parentes, suas vidas.

É o humano nas suas formas todas, com estéticas e valores que às vezes são difíceis de entender.

As mulheres gordas com seu sári colorido que deixa a barriga e suas dobras de gordura à mostra – sem vergonha dela.
Os meninos miseráveis que limpam as cabines do trem com a própria blusa em frangalhos em troca de umas moedas.
Os homens com seus belos turbantes fluorescentes andando de mais dadas enquanto checam os peitos da turista mais próxima.
A vaca gorda que se alimenta do lixo da casa onde mora.

A beleza está colada no horrível. Cheiros bons, ruins, vagamente familiares, completamente alienígenas, cheiro de gente suada, de especiarias… A Índia é um país ciumento, que exige toda a sua atenção o tempo todo.

Ame-a e deixe-se levar ou odeie-a e fuja. Não dá pra ficar indiferente.

Legenda da foto que ilustra o post:
Pátio de um templo hindu/casa de 4 andares onde moram 100 pessoas da mesma família/curral.
Sim, tudo ao mesmo tempo.

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Comments
7 Responses to “A Índia muda tudo”
  1. Cláu disse:

    não tenho palavras. 🙂
    ok, tenho algumas: uau!!!!!
    que post mais lindo e sensível. que delícia que foi ler. e que vontade IMENSA de ir pra índia!
    obrigada por esse post, Livs!
    e keep surfin’ ❤

  2. JuCoelho disse:

    espetacular. sou fã do seu blog!

  3. Eduardo disse:

    Oi Livia, fiquei fascinado com a India ou esse post seu, estou na dúvida, rs.
    Boa viagem!

  4. Liv disse:

    🙂 obrigada, queridos!!!

  5. Gabriel Zocrato disse:

    é meu outro pais de encanto (no momento, mochilo/habito a italia)! Seu post sò me deixa com muito mais vontade de correr pra là 🙂

    é otimo saber que é tao barato, posso ficar là uns 6 meses assim, rs. (ao contrario da italia e seus euros multiplicadores de dividas u.u’)

    Sò faltou um retiro espiritual, né? pelo menos pra mim faltaria…

    abraço!

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