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Bagan e seu mar de templos

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Bagan é uma região que ainda não está no Grande Mapa das Ruínas simplesmente porque o Mianmar ainda não é um país fácil de visitar (como já falei mil vezes aqui e não vou repetir). O local tem cacife para entrar no clube exclusivo do qual Angkor, Petra e Machu Picchu fazem parte. E com uma grande vantagem: tirando a parte chata do visto, é muito fácil de chegar e passear pelo lugar.

Bagan é uma planície onde se espremem cerca de 4.400 templos (em sua maioria budistas), todos construídos entre os séculos VIII e XI a.C.

A maioria deles foi construída com a mesma pedra encontrada na região e estilos muito similares. O interior dos templos não é tão interessante na maioria das vezes, tanto porque muitos afrescos foram destruídos num terremoto no século XVII, quanto porque os templos budistas da época seguiam um padrão que se repete por toda a região. Eles são, com honrosas e maravilhosas exceções, uma estrutura quadrada belissimamente decorada de um ou mais andares com uma estátua de Buda no meio, onde você pode fazer suas orações e oferendas e andar ao seu redor no sentido horário. Ou só entrar e olhar, claro.

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Ok, mas cadê a graça?

Além da beleza do exterior dos templos, que se repete até a exaustão? Diferentemente de Angkor, no Camboja, os templos de Bagan são melhor apreciados em sua coletividade. Qualquer topo de templo oferece uma vista incrível da planície, salpicada de torres dos outros templos e construções budistas. Dos 4 mil deles.

É uma paisagem inacreditável, meio alienígena, impossível de captar com minha pequena câmera fotográfica. A planície podia ser um planeta bizarro em Star Wars, um sonho de Salvador Dalí, um capricho de um arquiteto com muito dinheiro e espaço. Mas é o produto de muita devoção, riqueza e consciência pesada dos seus patrocinadores. Veja bem: é que construir templos traz bom karma, anulando, por sua vez, o karma ruim que vem da corrupção, violência, má gestão do país, etc. Haja culpa para construir 4 mil templos! Deviam ser tempos tensos para os birmaneses, mas o que ficou é sorte nossa.

Minha experiência em Bagan

Passei 6 dias na região. É meio muito, mas estava “presa” por lá por causa do Thingyan, o Festival da Água e Ano Novo Birmanês, que acontece por 15 dias e pára tudo, inclusive o transporte público, por pelo menos uma semana. Sim, foi meu 3º ano novo em 2012 – e eu amo isso!

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A grande graça do Thingyan é molhar as pessoas. É um período em que os geralmente tímidos birmaneses saem às ruas com baldes, mangueiras, garrafas, pistolas de água, e molham a galera sem medo de ser feliz. É tipo o carnaval no Brasil, mas sem bloco de rua. E com menos álcool, ainda que os birmaneses bebam em suas casas antes de sair pra festa. Em Mandalay, dizem que a celebração é a mais louca de todas e também a mais sem limites. Mas em Bagan ela começa com o nascer do sol e termina com o fim do dia – ainda bem, porque a música repetitiva me cansou os ouvidos. Uma dica (também serve para os outros países do sudeste asiático, que comemoram o mesmo festival com algumas variações): coloque tudo que não pode molhar em sacos plásticos, inclusive sua câmera, use roupas leves que sequem rápido e APROVEITE. Molhar-se é inevitável – e está tão calor que você DESEJA a água.

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Bom, foi nesse clima que cheguei a Nyang-u, uma das três cidades do complexo de Bagan (as outras são Old Bagan, onde fica a maioria dos templos e de onde os moradores foram não-democraticamente deslocados para dar lugar a hotéis há alguns anos, e New Bagan, para onde os moradores foram ao serem despejados) e a com os hotéis mais baratos. E a internet corre abundante como nenhum outro lugar no país.

É uma cidadezinha birmanesa simpática, com bons restaurantes daqueles com menu internacional, mas também casas de chá locais e acolhedoras. Algum desses estabelecimentos me fez mal, mas não saberia dizer qual – e tudo era delicioso que enfim… Tudo bem.

As ruínas de Bagan estão por toda parte: dentro das cidades, na estrada entre elas e nos descampados ao redor. O ingresso compulsório é adquirido na estrada antes de chegar ao complexo (ou recebido de um colega viajante em outro lugar, mercado negro de boicote ao governo birmanês) e só é checado no hotel onde você escolher se hospedar. O caminho pelas ruínas é livre e, na minha opinião, melhor percorrido de bicicleta. Também é possível contratar uma charrete – mais rápido e sem esforço, mas também um alvo melhor para vendedores e mais caro. E é mais difícil convencer o condutor a esperar 5 horas em um templo deserto e legal se você tiver afim (como eu fiz depois de alguns dias vendo minhas ruínas favoritas). Enfim, também dá pra combinar os dois, caso você fique dias suficientes. Há 3 estradas que rodeiam os locais com mais templos – o resto são trilhas de terra e campos de cultivo por onde você pode cortar caminho.

Os templos maiores são melhor restaurados e mais bonitos por dentro, mas não dá pra subir aos andares superiores e estão cheios de turistas e vendedores. Os melhores lugares para passar o pôr do sol e as horas mais quentes do dia são os templos médios, que dão pra subir e oferecem uma boa vista. Eles são muitos, escolha um que esteja vazio e aproveite, como eu fiz.

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Nenhuma foto faz justiça à sensação de inospidez, beleza escondida e solidão que se sente neste lugar.

É arrepiante e assustador, mas aconchegante ao mesmo tempo – talvez por causa do calor, que te abraça e domina.

Mas aí você volta à cidade e é atingida por milhões de litros de água, jogados pelas crianças mais doces e também pelas mais levadas, pelo avô que está com elas na beira da estrada, pelo senhor distinto que sorri de sua motocicleta com uma garrafa d’água na mão, pelos jovens bêbados que passam zunando em motos que levam 4 deles de uma vez, pelas adolescentes que timidamente miram uma mangueira em sua bicicleta, pelos bombeiros que brincam com seu arsenal de combate ao fogo. É uma travessura tão doce, tão libertadora, tão inocente – mesmo quando tem ares de vingança contra a opressão do resto do ano – que não há como não sorrir, esquecer o peso dos séculos ao redor e achar um balde d’água para se defender.

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Comments
8 Responses to “Bagan e seu mar de templos”
  1. Ziza disse:

    Ohwn….Que gostoso ^^

  2. Rodolfo Aguiar disse:

    Lindo post

  3. Oi, Liv. Tudo bem? 😉
    Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia

  4. Lu Malheiros disse:

    Liv,
    Adorei o post! E me lembrei de um livro em quadrinhos chamado “Crônicas Birmanesas” em que o autor, Guy deLisle, fala do festival da água!
    Boa viagem, um abraço

  5. Angela disse:

    Tem voo direto de Yagon para Bagan? Ou os voos param em outra cidade?
    Muito bom seu relato!

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