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Os melhores momentos não são fotografáveis

Preciso confessar: estava muito difícil amar o Mianmar no começo da viagem pelo país.

Em Yangon, caí no conto da troca de dinheiro na rua e perdi o equivalente a 80 dólares em um esquema desses que a gente lê nos guias e sites por aí. Pouco depois, peguei um ônibus do inferno de 14 horas onde fiquei no último banco, apertada entre uma dona de quadris largos e um jovem que, acidentalmente (??), sempre repousava a mão na minha perna (até que eu bati nela com meu livro – mas aí quem consegue dormir tranquilo?). Em Hsipaw, estava tão cansada que não fiz nada além de ler no hotel e dormir. Nem digo que visitei a cidade, é injustiça com ela.

Mas depois dessa maré de azares, bad vibe e mau humor, tudo melhorou.

Alguns alunos da escolha de inglês do Mr. Collins. Amigos do peito!

Amei Mandalay e arredores (como contei aqui) não só pelas atrações turísticas em si, mas também por causa das pessoas incríveis que encontrei. Gente que queria sentar comigo e bater papo, ouvir notícias do Brasil e do resto do mundo “lá fora” e contar sobre seus planos de vida, insatisfações políticas e compartilhar pequenas alegrias.

A minha paranoia com dinheiro (em um país sem caixa eletrônico e que não aceita dólares dobrados – sério, têm que ser notas perfeitas, sem amassado, riscos, carimbos nem nada -, perder 80 dólares do orçamento me deixou morrendo de medo) diminuiu quando conheci gente disposta a me convidar a almoçar na casa delas, dar carona da rodoviária até o hotel e levar pra passear pelos pontos turísticos de moto. As pessoas compensam todas as chatices de um país com um governo cheio de disse-me-disse.

Pakkoku, o destino depois de Mandalay, foi uma cidade onde não fiz nada digno de fotografia. Não visitei templos incríveis, não vi paisagens impressionantes nem fiz atividades curiosas ou divertidas no sentido comum do termo. Passei dois dias ótimos na cidade exercitando a boa e velha prosa entre amigos.

Fiquei na pousada de Mya Yatanar, uma senhorinha que abriu seu negócio em 1980, quando os turistas só tinham 7 dias de visto e “corriam desesperados por todos os lugares”, como ela mesma descreveu. Seu inglês é perfeito, a simpatia é infinita e a pousada é tranquila (nenhum luxo além de banheiro no quarto, mas é o lugar onde você quer ficar se passar por Pakkoku).

O lugar que NENHUM turista pode perder passando pela cidade é a escola de inglês do Sr. Collins. As pessoas todas sabem onde é, basta perguntar. Cheguei lá quase de noite, em companhia de um inglês que conheci na pousada da Mya. Quando nos viu, o dono da casa onde fica a escola já ligou pros professores e alunos (em recesso por causa do festival da água/ano novo birmanês) para que viessem conversar com a gente. A vantagem de ir a essa escola é que os alunos querem exercitar seu inglês com você e estão dispostos a explicar a cultura do Mianmar, contar histórias e comparar diferenças entre o Mianmar e nossos países.

No dia seguinte ao encontro na escola, um dos professores me buscou de moto na pousada junto com outros alunos e eles me levaram por diversos lugares turísticos da cidade e atuaram como guias, serviram de intérpretes entre moradores que pareciam nunca ter visto um estrangeiro na vida, ofereceram água, comida, suco…

Em um mosteiro, pude conversar com o abade que foi um dos líderes da “Revolução Açafrão”, que começou em Pakkoku. Trocamos impressões sobre o governo “democrático” que começou em 2010 (nem ele nem eu acreditamos na democracia ainda. Mas temos esperanças), comi bananas e docinhos típicos feitos com açúcar de palmeira, ganhei um xale tradicional do Mianmar.

Em outra casa, sentei com a família de uma das alunas da escola do Sr. Collins e ouvi suas histórias de vida ao som de música e dança tradicional birmanesa que tocava na televisão. E me aplicaram thanaka, a pasta de árvore que protege do sol e serve como maquiagem tradicional do país.

Vimos fábricas de sapatos tradicionais e tecidos de algodão feitos à mão. Em nenhum momento me senti forçada a comprar nada, a pagar por nada (mesmo querendo ter pagado pelas refeições me deram). Que diferença entre os países vizinhos!

Como explicar (ou fotografar) a felicidade deste dia? Impossível.

Recebi um longo abraço na alma dado pelo país inteiro. Foi isso.

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Comments
5 Responses to “Os melhores momentos não são fotografáveis”
  1. Angela Bacon disse:

  2. lucascreek disse:

    e no fim, o mianmar te amou! ❤

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