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Mianmar. Fatos históricos, licenças poéticas e considerações políticas

~~Mianmar~~Birmânia~~Myanmar~~Burma~~

O que antes era um nome num mapa com paisagens alienígenas e pessoas desconhecidas que eu queria ver de perto agora é uma lembrança boa, um calorzinho no peito.

Para começar a entender este país, é preciso começar com alguns fatos “chatos”, que facilitam a entender este caldeirão de etnias, disputas, riquezas e esperanças.

. O começo do que é a Birmânia como a conhecemos

Os ingleses finalmente conseguiram dominar o território birmanês em 1885, após duas guerras anglo-birmanesas. O domínio deste reino se estendia pelas planícies férteis do que hoje é o Mianmar, habitadas majoritariamente pelos Bamar, e as montanhas onde outras tribos étnicas tinham relações de vassalagem mais ou menos fortes com os Bamar. Com a dominação inglesa, que durou até 1948, o território delineou-se ao que poderíamos considerar hoje como nação, ainda que os ingleses tratassem o território como um estado da Índia (e tenham estimulado a migração de indianos para a Birmânia).

. Birmânia, Burma, Myanmar ou Mianmar?

O nome do país, em Bamar, se pronuncia Mianmar, desde sempre. Durante o período de dominação, os ingleses transliteraram o nome em caracteres latinos para “Burma”.

Os militares, em 1989, mudaram as traduções oficiais para o inglês de diversos nomes do país, inclusive de Burma para Myanmar. Inglaterra, EUA e outros países que têm forte oposição ao governo atual se recusam a aceitar a mudança arbitrária de nomes e a disputa Burma versus Myanmar tem conotações puramente políticas.

Eu uso os dois nomes (e a tradução para o português, Birmânia) como sinônimos, já que notei que os birmaneses em geral também o fazem – e quando falam em birmanês, eles só usam o termo “Mianmar”, por mais que odeiem os milicos. Aung San Suu Kyi, de longe a birmanesa mais famosa do mundo e estandarte da democracia no país, se refere à sua pátria como Burma quando fala em inglês e como Mianmar quando fala em birmanês. Para ela, a mudança de tradução não foi uma mudança democrática (como tudo que foi decidido pelos militares, é lógico – oi, era uma ditadura), por isso ela se recusa a dizer e escrever “Myanmar” quando se expressa em inglês.

. Quem é Aung San Suu Kyi

Filha do general Aung San, herói da independência do Mianmar, Aung San Suu Kyi (pronuncia-se Aung San Sú Tchi) foi condecorada com o Prêmio Nobel da Paz em 1991 pelos seus esforços em prol da democracia e direitos humanos em seu país. Chamada pelos militares simplesmente como “Daw” (em inglês “The Lady”) para dissociar seu nome ao de seu pai, honestamente a tentativa não deu certo. A galera VENERA Aung San Suu Kyi, por todas as partes do país. Ela passou mais de 15 anos em prisão domiciliar, entre 1988 a 2010, com alguns curtos períodos de liberdade no meio tempo.

Sua mera presença em jornais, cartazes e, claro, ao vivo, dão esperança de que a democracia ainda é possível e que a Birmânia ainda pode ser a prometida terra de prosperidade. Pô, é um território com planícies férteis para a produção de arroz, minas de ouro, rubis, safiras e jade, gás natural, petróleo, florestas de teca e o caralho à quatro. Os governos anteriores obviamente fizeram tudo errado em termos de multiplicar essas riquezas, já que o Mianmar é um dos países mais pobres do sudeste asiático, com uma renda per capita de 208 dólares (dado de 2008).

No Mianmar não existem sobrenomes, cada pessoa tem um nome único. Foi a mãe de Aung San Suu Kyi resolveu colocar o nome de seu pai ao da filha, já que ele já era uma personalidade importante no país na época de seu nascimento. O general Aung San morreu quando Aung San Suu Kyi tinha 8 anos, assassinado pouco tempo após ele haver negociado e conseguido acordos de paz com as diversas etnias do país e a independência mais ou menos pacífica do Mianmar dos domínios da Inglaterra. Seu assassinato o perpetuou como “o líder que poderia ser perfeito para o país”, claro, principalmente depois do desastre que foi a tentativa de democracia antes de os militares tomarem o poder – e da hecatombe que foram os 48 anos de ditadura, entre 1962 a, teoricamente, 2010.

. Os militares, as revoluções frustradas e a tímida abertura do país

Em 1962, os militares assumiram o país para “evitar o caos” e começaram o a ladeira abaixo que foi o “jeitinho birmanês em direção ao socialismo”. Em 1988 a galera cansou da incompetência dos militares e protestou. As manifestações foram suprimidas com extrema violência: morreram cerca de 3000 pessoas em poucos dias de revolta. Aung San Suu Kyi, que estudou e casou na Inglaterra, estava no país por sorte. Ela havia ido visitar a mãe em Yangon (antiga capital do país. Os militares construíram uma Brasília pra eles em 2006: Naypyidaw) bem na época e fez discursos acalorados em repúdio aos militares. Ovacionada pela população, foi candidata às eleições de 1990 (uma tentativa dos militares de acalmar os ânimos. os caras achavam que iam ganhar) e seu partido, National League for Democracy, conseguiu 55% dos votos. Os milicos não curtiram a ideia, ignoraram as eleições, prenderam Aung San Suu Kyi (muito importante para ser simplesmente morta) e a transformaram em heroína. Por diversas vezes lhe foi oferecido que ela viajasse para o exterior, mas é claro que ela não aceitou, por saber que não poderia voltar.

Em 2007 houve a “revolução açafrão”, quando as pessoas foram novamente às ruas protestar contra as medidas arbitrárias do governo (a prisão de Aung San Suu Kyi, inclusive) e sofreram outra repressão violenta. Mas, em 2008, o referendo para uma nova e democrática constituição foi realizado. Em 2010, eleições mezzo democráticas (o NLD boicotou o pleito devido à prisão arbitrária de Aung San Suu Kyi em 2009, para evitar que ela disputasse as eleições) foram realizadas, terminando com a ditadura do país. Ainda sim, os militares tinham asseguradas 25% das cadeiras do parlamento e a maioria dos 662 assentos foram ocupados por militares e ex-militares. Em 1o de abril deste ano (sem zoeira), foram realizadas pequenas eleições para 45 dos assentos, que ficaram vagos porque alguns deputados foram nomeados para cargos ministeriais. Aung San Suu Kyi disputou e ganhou. O NLD elegeu 43 dos 44 dos candidatos que nomeou (o que perdeu era indiano e me falaram que a população não curtiu a ideia) – mas isso não faz nenhuma cosquinha real no poder que os militares ainda têm no parlamento.

O motivo verdadeiro dessas concessões ao poder absoluto são óbvias: o fim das sanções econômicas ao país. União Europeia, Estados Unidos, Japão e outros países levantaram bloqueios econômicos à Birmânia que dificultam a vida da população e atravancam o crescimento do país. A China não tem problemas reais com o governo e está crescendo seus investimentos no país com velocidade impressionante, mas coisas como caixas eletrônicos ainda não existem no Mianmar. O sistema de telefonia é sofrível, a distribuição de energia elétrica é uma piada e a exploração dos recursos naturais tem sido feita com atenção zero a princípios de sustentabilidade. A vontade que os militares têm de ver o fim das sanções só não deve ser maior do que a das próprias empresas multinacionais que veem as possibilidades de mercado e investimento que o país apresenta. Eu consigo vê-los de olhos arregalados e boca cheia d’água na fronteira, como um cachorro em frente a uma daquelas máquinas de assar frango.

Por outro lado, a simples realização de eleições democráticas já faz os birmaneses reacenderem suas esperanças de que um mundo livre é possível. Pela primeira vez em 24 anos, Aung San Suu Kyi se sente confortável em deixar o país – ela promete visitar a Inglaterra e a Noruega em junho. Bandeiras do NLD são vistas por todo lugar, nas cidades grandes e pequenas. Fotos de Aung San Suu Kyi e seu pai são ainda mais onipresentes. As pessoas falam abertamente (ou pelo menos com menos medo) de seu descontentamento com o governo.

Mas ainda há uma grande diferença entre democracia e o que vive o Mianmar hoje. Os militares ainda podem mudar de ideia a qualquer momento e reassumir o poder com força total. Ou conseguir o investimento econômico que esperavam e apertar o gargalo novamente. Há de esperar pra ver.

. Enquanto isso, no lustre do castelo…

Toda a bagunça política e econômica em que o Mianmar se encontra é esquecida quando você entra na casa de um birmanês, senta para tomar um chá, conversa, ri, come e sorri ainda mais com a amabilidade dos anfitriões.

Por causa do seu isolamento, ou mesmo de sua natureza, a “birmanidade”, os habitantes do Mianmar querem que você tenha a melhor experiência do mundo em seu país. E conseguem. Compensam a dureza do governo com a afabilidade, as pequenas e grandes gentilezas, os sorrisos nas ruas. Andar pelas ruas do Mianmar é se sentir a Madonna: todo mundo te cumprimenta, muitos te convidam para uma conversa ao redor de xícaras de chá, te pagam almoços simplesmente porque foram com a sua cara. Por causa do ex domínio inglês, muitos velhinhos falam perfeitamente o idioma e querem te contar tudo sobre a história do país e sua cultura.

O isolamento cultural do país faz com que os homens ainda usem os tradicionais longyi (saias. Os homens usam saias xadrezes de algodão), tenham um charuto próprio, masquem noz e folha de betel que tingem suas bocas de vermelho, deixam a boca dormente e tiram a fome (e cuspam uma saliva vermelha no chão sem muita cerimônia), usem o thanaka, um pó de uma casca de árvore homônima, como cosmético para se proteger do sol e também para se enfeitarem.

Eu não sei como vai ficar toda essa riqueza cultural e gentileza inerente ao comportamento do birmanês depois que o ocidente “invadir a praia”. Pode ser que eles consigam preservar algumas das tradições. Outras vão virar simples teatros para turistas, com certeza. Mas, por enquanto, é tudo verdade. Tem que viver pra entender.

Noz de betel não é droga.

Nos próximos posts eu juro que serei mais objetiva quanto a lugares turísticos e etc. Prometo.

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Comments
9 Responses to “Mianmar. Fatos históricos, licenças poéticas e considerações políticas”
  1. Não seja objetiva porra nenhuma. Tão incríveis as postagens. Incríveis. 😀

  2. Elisa Aguiar disse:

    Concordo!Postagem bacana! ^ ^
    O betel é amargo?ou acido tipo morango?hehe
    BEIJOS E FELIZ ANIVERSÁRIO

  3. Oi, Liv. Tudo bem?

    Mianmar deve ser um destino incrível!

    Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia Paulista

  4. Lí, achei que esse foi o seu melhor post! Uma mistura genial de história, jornalismo, experiências in loco, e muita sagacidade! Ri muito com as suas tiradas, hahaha
    Parabéns, querida!
    Amo-te,
    Bjocão!

  5. Margot disse:

    Oi Livia,

    Enviei uma mensagem para você no facebook, mas como não somos “amigas”, a mensagem vai para a sua pasta “outras”.

    Agradeço se for possivel me ajudar com dicas e sugestões.

    Obrigada
    Margot

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Check out what others are saying...
  1. […] Como eu falei no post anterior, o governo do Mianmar não é o mais legal do mundo – na verdade, ele não está nem no top 100 dos mais legais. Toda a estrutura para os turistas do país está amarrada por regras que controlam onde eles (nós) podem(os) ir, onde dormir, quais ônibus/trens/barcos tomar, como respirar, etc. O governo também cobra ingressos para entrar nos maiores destinos de turismo – um dinheiro que não vai para a conservação deles (para onde ele vai? ~~~~Mistério~~~~). […]



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