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ciranda

Se conheceram em uma livraria, entre a prateleira de quadrinhos e a seção de ficção internacional. Ela tinha os cabelos ruivos e encaracolados curtinhos, o volume formava um triângulo arredondado em volta de sua cabeça. Usava óculos de aro grosso, a camiseta largona do colégio e saia até os joelhos, de bolhinhas brancas sob o tecido azul marinho. Nos pés, All Star preto e meias altas até o meio da canela. “Um desastre”, pensaria depois. “Uma gracinha”, pensou ele por trás da pilha de quadrinhos do Calvin quando a viu entre Cortázar e Coetzee.

Sete anos depois, o cabelo dela já bate no meio das costas, uma juba laranja domada por uma trança, seus óculos continuam os mesmos, os tênis se transformaram em botas de couro marrons e o colégio onde estudou não existe mais. Seus olhos vagueiam pela livraria, a mesma. Alguém toca sua cintura. É o baixinho de camisa listrada, sempre listrada, que rouba um beijo de seus lábios. A garota de unhas pintadas de vermelho rói um pedaço da rolha da garrafa de vinho à sua frente. Balança a cabeça, concordando com a cena que presencia desde sua mesa na cafeteria da livraria. “It’s so much better when we are together tocaria ao fundo se fosse um mundo perfeito”, pensou ela.

Mas chove e faz frio no verão – canções de um natal estrangeiro soam repetitivas pelos auto-falantes da loja. O tinto chileno já está pela metade. Nada aconteceu. Movida pela impaciência, pela embriaguez, pela chuva mesmerizante que não dá trégua há três dias, talvez, ninguém sabe ao certo porque, correu para fora, sem freio.

Deixou sobre a mesinha do café a garrafa meio cheia (ou meio vazia) e a bolsa aberta, desprotegida, e alcançou a avenida. Parou ali, bem ali, em frente à igreja escurecida pela noite. Ficou vários minutos, talvez horas, talvez segundos, entre as freadas dos carros, gritos horrorizados, sirenes luminosas e vermelho, muito vermelho. Casaco de chuva, unhas, batom, luzes natalinas que piscam sem cessar, o semáforo, os farois dos carros, a frente do ônibus amassado e sangue. O vermelho ainda mais brilhante por causa da chuva, que não se espanta com nada.

Em um mundo perfeito, sinos badalariam a meia noite, mas eram vinteeumaecinquentaedois, como anunciou o médico legista. Acordou com o solavanco do carro. “Merda”, praguejou o primo no banco da frente. Ele odiava o trânsito de São Paulo, mas nunca pegava o metrô, mesmo morando em frente à estação novinha em folha. Ela ajeitou o gorro na cabeça, vestiu a mochila e saiu para a rua congestionada. “São só oito quarteirões”, explica pelo vidro fechado. E a chuva já vai diminuindo mesmo… Seus pés pequenos chapinham pelas poças d’água, calçadas com sandálias de couro muito gastas. A saia ondula atrás de si.

O cheiro da chuva, esse cheiro metálico de concreto molhado, um pouco ácido, são um prazer para sua memória. Aquela manhã no quartinho de empregada da tia onde descobriu os vinis antigos amontoados debaixo da cama. A umidade havia comido boa parte das capas de papelão, mas o passado brasileiro dos pais continuava intacto. Tudo era mais colorido quando ouvia Bezerra da Silva, baixinho, pra ninguém perceber.

Do lado de fora, na área de serviço, um vento forte soprou quando tocou pela primeira vez Panis Et Circensis e levou embora sua fronha de florzinhas, um par de calcinhas velhas e a bandeira do Brasil que tinha sujado de caldo de feijão no último jogo da Copa. “Em dia de vento assim, o melhor mesmo é recolher a roupa do varal, estourar pipoca e esperar pelos raios”, repetiria pela enésima vez sua avó da cadeira de balanço de trelicinha. Mas vovó há muito era só lembrança dos netos, o apartamento não era mais da família e a cadeira foi trocada por uma cama de metal não tem nem vinte dias. Em breve seriam três, era preciso abrir espaço para o neném. O apartamento não comportava tantos móveis ao mesmo tempo. À noite, depois de lavar uma pilha de cuecas à mão e assistir à novela e o jornal da madrugada, chega o homem, a calça arriada. Reabrem-se as feridas da noite anterior, cada vez mais profundas, mas a brisa do fim do verão refresca a alma. “Minha filha vai ser diferente”, sim, será.

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Comments
One Response to “ciranda”
  1. Luciano Gomes disse:

    que absurdo … isso é muito bom!!!

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