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Carta ao destinatário desconhecido

Escrevo esta carta porque não sei onde mais depositar as madrugadas insones.

Sabe… é sorrateiramente que as ideias aparecem. À noite, quando você menos está preparada.

As mirabolâncias mais bobinhas que se enroscam nos meus cabelos quando a cabeça exausta toca o travesseiro. As ideias mais complexas se aninham entre minhas sobrancelhas despenteadas, naquela ruga que um dia terei.

Os projetos formulados à meia-luz, com os olhos cansados, ouvidos atentos, respiração irregular e cobertas quentinhas são os mais puros, mais malucos, mais maníacos, mais intensos já criados pela minha geração. Não é modéstia. Só eu tenho como saber, então acredite.

Rolo na cama. É mais fácil voltar a dormir. Chega! Volte amanhã quando for dia!, diz o consciente que se protege do frio enrolando-se na minha nuca. Nem sempre ele vence a discussão.

Quando algo me parece realmente espetacular, me levanto e rabisco algo em um caderno de cabeceira. Quando a ideia é irresistível (e o computador está ligado), afasto o sono e começo a colocá-lo no papel (na tela?) – para amanhã, amanhã!, continuá-lo.

Mas não. Já era. Uma vez de pé (ou sentada), a ideia começa a passar pelas travas da consciência. Da autocrítica. Da razão. Danou-se. O frescor se perde. Os projetos se transformam em velhos e copiados modelos de algum lugar.

A luz do meu quarto pisca, se isenta de qualquer culpa que eu queira inflingir-lhe. Os sons das ambulâncias e dos caminhões apresentam álibis que me impedem de acusar-lhes. Meus lençóis são burros demais sequer para entender o que é uma ideia.

Não, a culpa de estragar meus pensamentos é inteiramente minha. Mas não são eles também culpados por aparecerem nas horas erradas?

O que vou fazer com esta madrugada perdida, perdida por eu ter dado corda a um projeto que já não sei mais como era? Um signo, um exú, uma relação, que quando se concretiza já não é mais, é outra coisa.

Que merda de carta. Desculpe por tomar seu tempo.

Vou desligar o computador agora, querido destinatário desconhecido. Já passou da hora de dormir. Antes que Morfeu chegue para abraçar-me, inventarei histórias incríveis – as melhores já criadas até então – que não receberão voz nem serão contadas por ninguém.

Aguardo ansiosamente o gravador de pensamentos que me foi prometido uns invernos pra trás. Liga-lo-ei ao cérebro sempre antes de dormir. Enviar-lhe-ei as fitas gravadas, destinatário, para assistirmos juntos a evolução das ideias que nunca serão.

Um beijo terno,

Lívia

P.s.: Mereço pontos pelo uso de mesóclise. Por conta dela vale a pena enviar esta carta.

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Comments
3 Responses to “Carta ao destinatário desconhecido”
  1. Cláu disse:

    E é por isso que eu digo, minina: ideias são selvagens. Não respeitam horários, sono e muito menos a disponibilidade de bloquinhos e canetas à mão. São umas louquinhas.

    Mas, no fundo, ainda bem. 🙂 Taí uma coisa que ainda não conseguiram encaixotar, padronizar e acrescentar glúten.

    Porque de resto…

    (MANDA a carta! As mesóclises merecem!)

  2. Maira disse:

    Ficou muito bacana… adorei!

  3. Fando Cast disse:

    Confesso que a sua carta tem um certo estilo, que é uma maneira de consumir as palavras sem as matar, isto é, sem lhes retirar as potencialidades. Pois, o estilo é isto: com palavras iguais criar ambientes diferentes, ainda que subtilmente diferentes, ou mesmo insana e implacavelmente distintos, como se, bafejada uma frase, ela ainda pudesse ser revogada pela sombra de um olhar parido a desoras; do tédio volvido pueril voluntarismo em direção ao outro. Nem sempre as palavras são letais; nem sempre é dúctil o seu curso também. Por vezes, são como mãos na calada da noite em busca de um pescoço onde, se não acariciado ou beijado, se obra a asfixia, numa lenta alteração respiratória oscilando entre a vida e a morte, que é o ponto onde estamos sempre. Quando as palavras não são assassinas, tornam-se sons, olhos, cheiro, e o mundo dentro delas parece uma vida perceptiva. Um frescor, uma música que projeta a ilusão da vida, uma imagem falseada abandonada ao critério dos destinatários desconhecidos. E a cama, nesse amortalhado de alvuras e matizes ocasionalmente variegados, parece um livro pardo, onde pelas horas se escreve e se relê ao acaso dos delírios, das febres e contágios do mundo que partiu para existir fora, noutras esferas, rasgando o âmago dos que restam, inquietos – mas, paradoxalmente quedos no espaço apertado de paredes e lamparinas artificiais, máquinas humanizadas compondo as brisas etéreas do sono. Espero, pois, que, após o desligamento ou interrupção elétrica da maquinaria, ainda tenhas ouvido, certamente há muitas luas atrás, canções nos teus pensamentos e, como Homero, no escuro da cegueira noturna, visualizado letradas de corpos, cabelos, dedos, lábios, olhares inclementes, odores ignaros, gritos mudos longínquos de anónimos em convulsão com os seus sentidos, em agonia com um quentor adveniente sabe-se lá de onde, como rompendo a pele cardial, onde a câmara ainda vai por enquanto cheia.

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